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"Animal Político": Vaca pernambucana à beira de uma crise existencial

Poster do filme
Um dos filmes mais inusitados da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes passado na Sessão Aurora, foi do diretor Tião, já premiado duas vezes no Festival de Cannes, na mostra Quinzena dos Realizadores, com os curtas Muro e Sem Coração (dirigido por ele junto com a cineasta Nara Normande). “Animal Político”, nos apresenta uma vaca como protagonista do longa, causando um estranhamento e curiosidade a principio para os espectadores do festival.

Tião, diretor de 'Animal Político', na Mostra de Tiradentes 2016

Logo de inicio vemos a angústia e relutância da protagonista com o seu presente, fazendo diversas indagações sobre sua vida e sentimentos, assim, mergulhando em uma crise existencial iminente. Leia a sinopse do filme: “Uma vaca tenta se convencer de que é feliz. Numa noite, véspera de natal, a vaca confronta-se com uma sensação forte de vazio, algo estranho que ela nunca havia sentido. A crise a faz começar uma jornada por iluminação, em busca do seu verdadeiro eu.”

A direção de arte é de Thales Junqueira, que realizou diversos curtas-metragens premiados e está presente na equipe de arte de filmes como “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, e “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. A direção de arte do filme “Animal Político” é extremamente bem cuidada e balanceada entre cores mais frias, como o azul e as cores mais quentes, como o vermelho, quando surge um intervalo narrativo, com o curta: “A pequena caucasiana.”.
Essa mistura na paleta de cores e narrativa, nos confronta com a intenção do filme, mais uma vez, nesse misto de sentimentos, indagações e angustias presentes. Quando temos a presença da vaca como protagonista, a tonalidade da cena é composta pelos tons frios, como o azul, o verde, tons pasteis, e também variações de cinza. Cada uma das cores escolhidas podem ter sido intencionais para criar uma atmosfera que abrange tão bem o significado das cores em uma narrativa tão densa. A cor azul pode ter diversas significações, mas no filme “Animal Político” estaria representado pela angustia do personagem, a monotonia e depressão. O verde pela suavidade e equilíbrio do momento, os tons pasteis para destacar mais a indecisão e as tonalidades do cinza o que é indefinido, a dúvida, podendo chegar até ao aborrecimento.



Quando temos a pequena caucasiana como protagonista vemos uma narrativa que constrói o isolamento de uma forma oposta à vaca. Segundo Bruno Carmelo, do site Adoro Cinema, “...a jovem caucasiana representa a personagem alienada, afastada contra a sua vontade de seu mundo de privilégios, enquanto a vaca toma a atitude política de se afastar por si própria. São duas formas distintas de romper com a inércia da classe média, mostrando como os personagens só interessam ao diretor quando retirados de seus meios naturais. Neste caminho, Tião imagina o encontro entre dois seres humanos sem cabeça, num belo momento magrittiano que contribui à metáfora da perdição.”

Conseguimos uma 'pausa para respiro', onde quem estaria perdido na narrativa de Animal Político até então, seria o momento para ligar os pontos e ver o quão profundo a narrativa é, e relacioná-la com esse curta-metragem chamativo e intrigante. Não é somente a forma de isolamento oposta que constrói da vaca, mas também toda sua direção de arte, as cores contêm um forte contraste entre cores frias e quentes bem marcantes, onde a bela caucasiana é trabalhada com tons marcantes e sedutores. 

Com o destaque em vermelho do sangue e cabelos ruivos de (Elisa Heidrich) que se encontra perdida em uma ilha deserta, e é obrigada a devorar seus bens quando tem fome, mesmo sendo de uma família aristocrática. A presença física e não racional do coração humano é marcado com as cores, elas também nos guiam em um sentimento de calor e desejo. A cor amarela poderia reapresentar a nobreza, ou nesse caso em especifico a falta dela. 



Retomando ao longa Animal Político, uma das grandes curiosidades do público presente na sessão foi como a produção fez para levar a vaca a diversos lugares públicos e se tiveram problemas durante as filmagens, como as cenas da balada, do shopping center, restaurante, ou mesmo nas ruas. Bruno Carmelo questionou em uma entrevista feita com o João: “Como se coloca uma vaca dentro de um shopping center, ou no salão do cabeleireiro? Como se constrói a personalidade de uma vaca, e de que maneira ela pode sofrer uma transformação?”

Segundo a entrevista de Bruno Carmelo com Tião, o filme contêm um humor “sutil e absurdo”, vai de Sessão da Tarde a Dostoievski e Nietzsche". Durante o inicio da sessão gerou muitos risos do público, por questão de um estranhamento da protagonista ser uma vaca passar por situações que passamos todos os dias, surpresa e questionamentos como dirigir uma atriz tão peculiar. “Às vezes é um humor que bate de frente, logo com o corte da montagem, às vezes ele vem devagar, como a vaca.” - Tião. Você pode conferir a entrevista completa clicando aqui.

Animal Político nos apresenta uma associação bastante interessante e profunda ao colocar a vaca vendo um museu de arte e se depara com um quadro, fica admirando-o e indagando diversas questões. Quando chega ao final da narrativa, a vaca se depara a mesma cena do quadro, mas agora está vivenciando o que antes era apenas uma representação. A cor verde das árvores, natureza antes distante dela emoldurado em uma parede agora a cerca de maneira harmoniza, representando o conforto e equilibro do momento.


Além do longa-metragem ter sua estreia em Tiradentes, o filme teve também sua estreia internacional no International Film Festival Rotterdam, no Festival de Roterdã, um dos mais importantes da Europa e concorreu ao prêmio da sessão Bright Future.


Tião têm influências fortes no cinema como os diretores David Lynch , Spike Jonze, Charlie Kaufman. Podemos perceber características da problematização existencialismo humano entre estes, Animal Político cultiva reflexões sobre a realidade concreta do indivíduo, discute especulações filosóficas, em polêmica com doutrinas racionalistas que dissolvem a subjetividade individual em sistemas conceituais abstratos e universalistas, além de problematizar diversas questões do nosso mundo contemporâneo e nossa maneira de ver os seres humanos como os únicos seres racionais e lógicos.

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Escrito por: Bárbara Antônia

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