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Rolê: Histórias dos Rolezinhos

Bruno Vilarinho

Carolina Araújo Esteves

Giselle de Jesus Ribeiro

Tiago Sadala Mendes

Vitor Tibo de Oliveira Bruno


Direção: Vladimir Seixas. País: Brasil. Ano: 2021. Duração: 1h22 min.

Imagens, vídeos, manchetes e reportagens iniciam e contextualizam “Rolê: A história dos rolezinhos”, sobre o fenômeno sociocultural que obteve seu ápice no ano de 2013 em diversas localidades do Brasil. No longa-metragem é mostrado previamente jovens periféricos se reunindo nos shoppings dos bairros mais caros das cidades em busca de expressar sua indignação com os casos cada vez mais frequentes de racismo e reclamar seu direito de lazer. A presença crescente de pessoas negras nesses ambientes suscitou inúmeros atos de racismo dos comerciantes, seguranças e dos próprios estabelecimentos para com o grupo. Tal dimensionamento inicial do filme nos dá a impressão de que ele será centrado exclusivamente no movimento, desmembrando unicamente o conjunto de acontecimentos que levaria a eclosão desses eventos. No entanto, o título logo se justifica - não se trata da “história dos rolezinhos”, e sim das “histórias dos rolezinhos”, compreendendo a existência de estratificações e desdobramentos da história inicial. Para o diretor Vladimir Seixas, o fenômeno representa um ponto de partida para discutir o racismo estrutural e institucionalizado no Brasil, o impacto do rolê e de outras performances culturais e artísticas, além do empoderamento de pessoas negras dentro de um país fortemente desigual.

Desse modo, ele elege alguns personagens principais: a historiadora Thayná Trindade, cujo trabalho se volta à ancestralidade negra; Priscila Rezende, artista visual brasileira com obras focadas na inserção social de pessoas negras, e Jefferson Luís, músico e idealizador dos rolês. Teria sido cômodo sentá-los numa cadeira e registrar suas falas e pensamentos, porém felizmente o projeto vai além de escutar discursos ensaiados - Seixas

cria em parceria com estes idealizadores. Seguindo-os pelas ruas, nas universidades, através de performances e palcos, nos almoços de fim de semana, nos congressos e nas festas de rua, o filme vai de encontro ao cotidiano, sem esperar que suas realidades sejam narradas ao espectador.

Rolê impressiona pela concepção e acabamento estéticos, sob os cuidados do próprio diretor que também assina o roteiro, montagem e divide o cargo de direção de fotografia com Léo Bittencourt. Em contraponto às imagens de urgência, nas quais a qualidade da captação é deixada em segundo plano para privilegiar a relevância do tema, o filme apresenta composições cuidadosas, bem refletidas e executadas, resultando em uma dezena de cenas belíssimas. A conversa de Priscila Rezende com uma amiga, sentadas à mesa, traz um cuidado delicado de luz e som - o zelo em manter o dispositivo longe o suficiente para deixar as jovens confortáveis, mas ainda próximo o bastante para que não fosse esquecido, demonstra tamanha sensatez. Este distanciamento equilibrado se mantém e pode ser notado também na sequência da performance com as panelas, na cena conduzida pela letra da música de Jefferson, e na deslumbrante interação entre dois amigos sobre os entulhos de um beco. Seixas mantém um compromisso de encontrar maneiras de valorizar o cenário, fator fundamental para compreendermos a origem dessas pessoas.

Se tratando da montagem, ela é realizada de forma a transmitir uma fluidez impecável. Letreiros, divisão em capítulos e outros procedimentos de ruptura são dispensados pela narrativa que encadeia num único fluxo os rolezinhos, um congresso acadêmico, uma roda de discussão entre mulheres negras e comerciais de televisão antigas e recentes, repletos de mensagens racistas. Ao invés de fragmentar a estrutura em subtemas, Seixas compreende que fazem parte de uma discussão integrada.

Somado a isso é impossível falar em rolezinho sem pensar no papel segregacionista dos shoppings, da mídia e da ascensão da extrema-direita ao poder. A ironia do lugar de vigilância de pessoas que eventualmente possuem as mesmas dificuldades financeiras, os mesmos olhares, e as mesmas formas de segregação em outros ambientes - como foi pontuado no documentário. A partilha de sentimentos entre mulheres da apresentação que escancara a diferença de percepção e de vivências de mulheres negras e dos outros frequentadores dos espaços de compra. O filme acredita na política exercida tanto em protestos quanto na conduta cotidiana, e graças à montagem, eles se tornam indissociáveis.

Por fim, o documentário chega à sua melhor proposta: aquela de que os passeios nos centros comerciais representam metonimicamente o dia a dia de qualquer indivíduo negro. A noção de enfrentar um universo controlado pelo dinheiro e o poder simbólico dos brancos, que apagam ou se apropriam de modo fetichista dos corpos negros, encontra-se tanto nos acontecimentos e movimentos dos anos 2010, quanto na vivência histórica de povos oprimidos. Ser negro no Brasil representaria, em última instância, um grande rolezinho, razão pela qual os encontros nos shoppings seriam apenas a versão explícita desta relação desigual. O texto encontra brechas para sugerir que a violência do opressor não pode ser equiparada àquela do oprimido, convidando, por meio de conversas despojadas, à luta diária pela consciência de classe e pelo senso crítico.

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